O que podemos aprender sobre as obras de arte do Capitólio dos Estados Unidos?

A história a supremacia branca norte-americana já estava pendurada nas paredes do Capitólio quando os seguidores de Trump invadiram o local

Capitólio dos Estados Unidos
Invasão no Capitólio dos Estados Unidos pelos seguidores de Trump / Foto: Saul Loeb / Getty Images

No dia 6 de janeiro de 2021 o mundo parou em choque com a invasão do Capitólio dos Estados Unidos por seguidores do presidente (quase ex!) Donald Trump. Digo “seguidores”, pois ele parece ter criado uma espécie de seita da política da violência, do absurdo e das fake news que parece ter chegado ao seu limite. A barbárie tomou conta dos EUA respaldada por uma onda extremista acompanhada de uma impressionante lavagem cerebral a nível nacional. Discussões e preocupações políticas sobre o episódio à parte, parece vital e elucidativo analisar as imagens da invasão e as obras de arte que protagonizam ao lado dos manifestantes.  

Um dos mais importantes e imponentes espaços do poder político contemporâneo, o Capitólio dos EUA é também uma revelação da própria história branca daquela nação que se dá por meio das obras de arte que abriga.  São elementos simbólicos de tudo que estava acontecendo ali. 

Capitólio dos Estados Unidos
Um dos manifestantes que invadiu o Capitólio dos Estados Unidos Foto: Saul Loeb/ AFP / Getty Images

A rotunda é um espaço dominado por uma série de pinturas narrativas que contam uma história familiar, embora distorcida e incompleta, sobre as origens da nação. As duas pinturas vistas ao fundo do manifestante abraçando a estátua de Gerald Ford (que segura a bandeira “Trump 2020 NO MORE BULLSHIT”) são emblemáticas de uma história parcial. 

À esquerda, temos uma pintura de William Henry Powell, de 1855,  representando o momento em que o espanhol Hernando De Soto “descobre” o rio Mississippi. À direita, uma pintura de John Vanderlyn, de 1847,  mostrando o desembarque de Cristóvão Colombo na América do Norte. Ambas pinturas e outras que estão no edifício foram comissionadas e instaladas em meados do século 19, num momento em que o governo dos EUA estava trabalhando agressivamente para expandir as fronteiras da nação e a questão da escravidão, que foi abolida em 1865 pela Décima Terceira Emenda,  dominava o debate no Congresso.

As versões colonialistas dessas pinturas de “liberdade” e “descoberta”, vale notar, estão tão implicadas na narrativa do MAGA (Make America Great Again) quanto o chapéu colocado na cabeça de Ford.

Um dos manifestantes entre os retratos de John C. Calhoun e Charles Sumner / Foto: Mike Theiler / Reuters
Um dos manifestantes entre os retratos de John C. Calhoun e Charles Sumner / Foto: Mike Theiler / Reuters
Outro manifestante entre sob o retrato de Charles Sumner
Outro manifestante entre sob o retrato de Charles Sumner

Como os historiadores rapidamente notaram, os dois retratos na parede contam uma história própria. A imagem à esquerda é um retrato de John C. Calhoun, vice-presidente e senador da Carolina do Sul, defensor enfático da escravidão. E seu nome, vale ressaltar, está longe de ser esquecido num passado estadunidense remoto – depois de muitos anos de debate, em maio de 2020, a cidade de Minneapolis rebatizou o Lago Calhoun; em junho, no auge dos movimentos #blacklivesmatter, uma estátua de Calhoun no centro de Charleston foi removida; e a Clemson University votou para remover o nome de Calhoun de seu programa de honras. A aparição de seu retrato em diálogo com um dos manifestantes explica muito, portanto, do que vivemos na era Trump. 

O retrato à direita mostra o senador Charles Sumner, de Massachusetts, que em 1856 foi espancado no plenário do Senado pelo congressista da Carolina do Sul Preston Brooks depois que Sumner fez um discurso anti-escravidão. A justaposição dos retratos certamente foi intencional: os curadores do Capitólio garantem, assim, que os debates carregados da época não sejam esquecidos. 

Escultura do presidente Zachary Taylor manchada de sangue durante as manifestações
Escultura do presidente Zachary Taylor manchada de sangue durante as manifestações
A estátua manchada de sangue foi coberta depois de ser manchada de sangue
A estátua manchada de sangue foi coberta depois de ser manchada de sangue

É interessante notar as imagens da escultura do presidente dos EUA Zachary Taylor: ensanguentada e, em seguida, coberta por um plástico. Elas provam que as obras de arte no Capitólio dos Estados Unidos se tornaram participantes simbólicos involuntários, mas nem sempre inadequados, da ação da multidão incitada pelo presidente no dia 6 de janeiro. Mesmo que o saco plástico tenha sido aplicado pela equipe de limpeza, ainda é uma imagem assustadora sugerindo que o ex-presidente tenha sido sufocado.

Manifestante com pódio na mão na rotunda, local onde concentra-se a maior parte das pinturas históricas
Manifestante com pódio na mão na rotunda, local onde concentra-se a maior parte das pinturas históricas

Nesta imagem vemos um manifestante em êxtase com o pódio onde muitos políticos já discursaram na mão. Ao fundo, uma pintura feita em 1826 por John Trumbull. Trata-se da rendição do general britânico John Burgoyne em Saratoga, Nova York, em 17 de outubro de 1777. Esse ponto de inflexão no processo de independência norte-americana teria impedido os britânicos de dividir a Nova Inglaterra (região no nordeste dos Estados Unidos que abrange os estados de Maine, Vermont, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island) do resto das colônias e foi o fator decisivo para trazer o apoio francês ativo à causa americana.

Em todas as pinturas do espaço a bandeira americana aparece de alguma forma.Aqui, ela tremula com o vento no topo da tenda, enquanto oficiais americanos se reúnem nas laterais para testemunhar o evento!

Manifestantes descansam debaixo da pintura que representa a independência norte-americana
Manifestantes descansam debaixo da pintura que representa a independência norte-americana

Uma das imagens já mais emblemáticas da invasão é dos manifestantes repousando abaixo da pintura Surrender of Lord Cornwallis ,  também criada por John Trumbull em 1826. Trata-se da rendição do exército britânico em Yorktown, Virgínia, em 1781, que encerrou a última grande campanha da Guerra Revolucionária. De um lado, mais uma vez, a bandeira americana, do outro, uma bandeira branca sugerindo paz. 

O céu azul cheio de nuvens escuras e o canhão quebrado sugerem as batalhas que levaram a este evento. No início de setembro, entrincheirado com uma força de 7.000 homens, Cornwallis esperava ser resgatado do mar, mas os navios britânicos foram repelidos por uma frota francesa. Em poucas semanas, o general Washington implantou um exército muito maior e sua artilharia bombardeou as posições britânicas no início de outubro. Depois que as tropas americanas e francesas invadiram duas fortalezas britânicas, Cornwallis se rendeu em 19 de outubro.

Um momento de glória da história branca norte americana ao fundo, manchado por uma nação orientada pela intolerância e violência. Make America Great Again: a campanha dos manifestantes clama pelo retorno de um país onde a supremacia branca dita as regras, como mostram as telas expostas no Capitólio dos Estados Unidos. Parece um desejo de quem está acostumado a ver e acreditar em imagens construídas como as das telas históricas do local. Nada nasce à toa. 

Capitólio dos Estados Unidos
A campanha dos manifestantes clama pelo retorno de um país onde a supremacia branca dita as regras, como mostram as telas expostas no Capitólio dos Estados Unidos