#CenastípicasAQA: A Anunciação

A Anunciação é uma das cenas mais típicas e famosas na História da Arte, conheça algumas versões clássicas

A Anunciação, Simone Martini, 1333.
A Anunciação, Simone Martini, 1333.

A Anunciação, como o próprio nome já entrega, é a passagem bíblica que narra o episódio durante o qual o anjo Gabriel aparece para Maria anunciando que ela estava gerando o filho de Deus e que deveria chamá-lo de Jesus após seu nascimento. Esta cena, portanto, não carrega uma história complexa e desconhecida por trás como as outras cenas que apresentamos nesta seção, mas a sua importância para a história da arte não é menos importante por ela ser mais “conhecida” do que as outras. 

A sua importância reside, sobretudo, em sua aparente “simplicidade”, uma vez que a composição da Anunciação é, na esmagadora maioria das vezes, a mesma: Maria e o anjo Gabriel. Desta forma, a Anunciação é uma cena típica que permite uma profunda análise comparativa entre as obras produzidas em momentos diferentes, com técnicas diferentes e por artistas diferentes. Certamente uma versão produzida durante a primeira fase do renascimento, o Trecento (século XIV), será muito diferente daquelas produzidas em fases posteriores como o Quattrocento (século XV) ou o Cinquecento (século XVI). 

A Anunciação, 1442, Fran Angelico.
A Anunciação, 1442, Fran Angelico.

Estudando a História da Arte muitas vezes temos a mania de colocar obras de períodos distintos em um mesmo “monte”, como se o renascimento italiano, por exemplo, tivesse sido um movimento fugaz e passageiro e como se todo artista do renascimento tivesse pintado da mesma maneira e na mesma época. O que vale ressaltar é que o renascimento, por exemplo, foi um movimento que se estendeu por mais de três séculos: XIV, XV e XVI. E, assim, duas pinturas renascentistas que retratam a anunciação podem estar separadas por mais de 100 anos, o que é mais ou menos a diferença entre uma tela de Pablo Picasso e uma de Damien Hirst. 

Para que a análise seja possível, é necessário um recorte, por isso restrinjamo-nos ao renascimento italiano. As obras estão organizadas da mais antiga, no topo da matéria, à mais tardia, ao fim. Assim é possível observar algumas evoluções com bastante clareza. A mais antiga é uma obra de um artista sienense chamado Simone Martini, de 1333. Ela foi feita com a técnica da têmpera, que envolve pigmentos e um aglutinante que era frequentemente clara de ovo, sobre madeira. O fundo dourado é típico do período pré-renascentista e início da sua primeira fase. Aspectos como volumetria e perspectiva ainda são muito incipientes: as figuras estão “chapadas” sobre a superfície da tela. Uma das características principais na evolução do renascimento é aproximação do sagrado ao humano e a consequente e gradativa “humanização” das figuras sagradas. Nesta obra de Martini ainda não é possível pensar que as figuras que a compõem são humanas, elas ainda estão elevadas ao status de “representações divinas”. 

A Anunciação, 1472, Leonardo da Vinci.
A Anunciação, 1472, Leonardo da Vinci.

Já na versão de Fra Angelico, feita em 1442 e, portanto, cerca de 100 anos após a primeira, é possível enxergar algumas diferenças: em vez do fundo dourado temos uma paisagem terrena; as figuras agora são ligeiramente mais “humanas”; a profundidade e a volumetria da obra foram aprimoradas e já é possível ver o estudo da perspectiva com a presença de um ponto de fuga. Entretanto, o observador ainda tem a impressão de uma representação sagrada: tanto o anjo como Maria possuem auréolas sobre as cabeças que ainda os elevam e distanciam. 

A seguir, trinta anos mais tarde, Leonardo Da Vinci apresenta a sua versão da cena, pintada em 1472, quando ele tinha apenas 20 anos e, portanto, longe da sua maturidade artística. Mesmo assim, a versão de Leonardo já demonstra uma enorme evolução na técnica. Tanto o anjo quanto Maria são representados de forma mais “humanizada” e a perspectiva e a volumetria já estão muito aprimoradas. Vale ressaltar também o conjunto de árvores ao fundo. Da Vinci era apaixonado pela natureza e estudava em demasia, a preocupação em retratar árvores tão diferentes vem desta observação assídua e do estudo do natural. 

A Anunciação, 1489, Sandro Botticelli.
A Anunciação, 1489, Sandro Botticelli.

Já no fim do século XV, em 1489, Botticelli pinta a mesma cena. Sua versão, comparada à de Fra Angélico, é muito mais sofisticada. Através da janela é possível vislumbrar uma paisagem ao longe o que indica a preocupação com a forma, com o estudo e com a técnica para além daquilo que está sendo retratado no primeiro plano. Durante a evolução do renascimento, pouco a pouco o homem passa a estudar mais a si mesmo e o mundo ao seu redor e isso é nítido nas obras de arte. Nesta obra, tanto o anjo Gabriel quanto Maria já se assemelham mais a figuras humanas, apesar de ainda serem retratados com auréolas. 

Já chegando à conclusão deste percurso analítico temos a versão do mestre Rafael, pintada em 1502. Nesta obra o domínio da perspectiva, da noção de arquitetura, da volumetria, da harmonia e da proporção são inegáveis. Se não fossem as asas do anjo e uma representação de Deus acima, do lado esquerdo, poderíamos dizer que que não são Maria mãe de Deus e o anjo Gabriel, mas sim dois seres humanos comuns, sem auréolas, trajes ou brilhos especiais.

A Anunciação, 1502, Rafael.
A Anunciação, 1502, Rafael.

Um século mais tarde, em 1608, Caravaggio, maior expoente do barroco italiano pinta a anunciação. Apesar de ele não ser renascentista e do barroco ter motivações e especificidades completamente distintas às do movimento anterior, é interessante colocar essa tela ao lado das demais para observar exatamente a diferença entre o renascimento e o barroco. A transição da luz, da linha reta que no barroco se curva, da composição ligeiramente caótica e da humanização do sagrado. Maria na tela de Caravaggio é apenas uma mulher, que se curva diante da presença de um anjo. Eles não são nem sequer representados na mesma linha: o anjo está acima, Maria está abaixo. 

A Anunciação, 1608, Caravaggio.
A Anunciação, 1608, Caravaggio.

Há ainda, o que não coube aqui analisar, muitas outras representações desta cena. Pertencentes a muitos outros artistas, de outros países e movimentos que não a Itália, à qual nos restringimos aqui. Entretanto, o convite é à análise. Conhecer a cena retratada pode ser o primeiro grande passo para compreender o movimento no qual esta retratação está inserida, a forma como ela se dá e o que isso representa para a História da Arte. Portanto, atento para as próximas #CenastípicasAQA.

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support
pt_BR