Lygia Clark na Pinacoteca: uma resposta “imersiva” para a massificação da experiência

A exposição “Lygia Clark: Projeto para um planeta” reitera a relevância da abordagem participativa ainda nos dias atuais

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Vista da exposição Lygia Clark: Projeto para um planeta para Pinacoteca de São Paulo. 02/03/2024 © Levi Fanan / Pinacoteca de São Paulo

Em meio às demandas frenéticas do cotidiano pós-moderno, quanto da sua sensibilidade é ofuscada ou até mesmo suprimida? Desde a década de 1950, a artista Lygia Clark produziu trabalhos que deslocassem o público da posição contemplativa de espectador, para que pudessem ser participantes ativos – tornando-se pioneira desta prerrogativa. Sabe aquele clichê “Isso é arte? Mas isso qualquer um faz!”? Para ela não seria uma ofensa, pelo contrário, Clark acreditava na potência social e poética de uma arte que não se restringisse aos museus e artistas, mas se realizasse justamente por meio de outras mãos além das dela. Inclusive, aos seus olhos, o rótulo de “obra de arte” chegou a ser completamente irrelevante para sua produção. 

Atualmente, a mostra panorâmica “Projeto para um planeta”, curada por Ana Maria Maia e Pollyana Quintella, ocupa as sete salas expositivas da Pinacoteca de São Paulo, nos convidando a acompanhar as diferentes fases e pilares do corpo de trabalho de Lygia Clark. Por meio da exposição, acompanhamos como as obras, na pesquisa da artista mineira, deixam de ser um fim em si mesmas para se tornarem um “meio”, até não se prestarem a ser objetos artísticos mais. 

DA REPRESENTAÇÃO À PRESENÇA ENQUANTO OBJETO

Obra “Descoberta da Linha Orgânica” na exposição “Lygia Clark: Projeto para um planeta”. © Levi Fanan / Pinacoteca de São Paulo

A artista, ainda que tenha realizado algumas pesquisas iniciais em pinturas figurativas, rapidamente abandonou o lugar metafórico da representação e entendeu a linguagem da pintura enquanto superfície no espaço. A obra “Descoberta da linha orgânica” (1954), destacada na Pinacoteca, reflete um dos pontos de virada desta investigação. Em seu diário, Clark relata que o título refere-se a sua própria descoberta depois de observar a fresta que contorna uma porta fechada, evitando seu contato com a parede e o chão. No quadro, ao invés de adicionar uma moldura como um elemento extra à tela, a artista a integra à composição, definindo o vão entre a madeira e a tela como uma “linha orgânica”.

Indo além, Clark passa a refletir sobre as relações entre “dentro” e “fora” de suas composições, bem como a interação entre “corpo” e “espaço”, quando propõe  “Maquete para interior nº 3” (1955). O projeto, com uma espécie de duas portas, foi reproduzido em grande escala pelo museu da Luz para que os visitantes possam atravessar o campo pitoresco e romper com sua bidimensionalidade. 

QUEBRA DA AURA DE CULTO DA OBRA E DO ARTISTA

A primeira sala que temos contato com a exposição nos recebe com um carpete preto e paredes brancas em diálogo com as cores e geometrias das pinturas sobre madeira expostas nas paredes. A expografia abraça os conceitos da artista e nos convida a passear sobre o plano pictórico. Ao centro, há um tablado que nos permite sentar e interagir com dez réplicas da série “Bichos”, uma das mais famosas produzidas por Clark a partir de 1960.

“Bichos” na exposição “Lygia Clark: Projeto para um planeta”. © Levi Fanan / Pinacoteca de São Paulo

Se na galeria expositiva ao lado, temos um altar que reúne quase vinte “Bichos” originais para reverência e contemplação, neste primeiro ambiente as versões disponíveis para o manuseio do público rompem com a aura da obra. 

Mas se engana quem pensa que pode manipular ou mesmo controlar estes objetos. Pelo contrário, a cada manejo dessincronizado, eles revelam justamente sua autonomia. “Eles nos frustram, porque a gente acha que vai dar a eles a forma que a gente quer, mas eles têm seus próprios desejos”, observa Quintella. Segundo as palavras da própria Lygia, mais do que toque, os “Bichos” requerem relacionamento: “Eles têm respostas próprias e muito bem definidas para cada estímulo que vier a receber”. O foco do trabalho se dá, portanto, entre público e obra, enquanto a autora desce de sua majestosa posição soberana de artista, e fica em segundo plano. Inclusive, vale dizer, que o próprio título de artista foi rejeitado por Lygia nos últimos anos de sua vida, quando ela passou a se dedicar completamente às práticas terapêuticas evoluídas de seus estudos com os “objetos relacionais”. 

Réplicas dos “Bichos” na exposição “Lygia Clark: Projeto para um planeta”. © Levi Fanan / Pinacoteca de São Paulo

A “RESSESIBILIZAÇÃO” DO SUJEITO MODERNO

Na década de 1950, o Brasil era um país apontado para o futuro. Enquanto Estados Unidos e Europa superavam as consequências da Guerra, os ventos do otimismo chegavam ao nosso país. A indústria e a urbanização estavam a todo vapor, o que culminou na crescente migração dos campos para as cidades, Brasília era construída para se tornar a nova casa do Governo Federal, e a seleção de futebol conquistava seu primeiro título de campeão na Copa do Mundo. Para o circuito das artes visuais, o período foi marcado pela criação da Bienal de São Paulo, pela inauguração de grandes instituições, como MAM-SP e MAM-RJ, e pela ascensão da Arte Concreta em São Paulo. Em meio a tudo isso, Lygia Clark veio a se juntar com artistas cariocas que se contrapunham à “exacerbação racionalista” do Movimento paulista, para defender uma arte ligada “a uma significação existencial emotiva e afetiva”. Por sugestão da própria Lygia, em 1959 foi realizada a 1ª Exposição de Arte Neoconcreta no MAM-Rio. 

No início da década seguinte, entretanto, o horizonte se estreita e a utopia esvaece diante da repressão imposta pela Ditadura Militar e seus sintomas precedentes. É sob a realidade deste contexto, não podemos esquecer, que nasce a emblemática série de esculturas articuladas, que nos revelam que “nós é quem somos os Bichos”, como definiu Quintella. 

Suas obras seguintes foram majoritariamente compostas por materiais cotidianos, que permitiam a realização por qualquer pessoa e em qualquer lugar, não apenas em espaços institucionais. “Caminhando” (1963), por exemplo, é um exercício que se dá a partir de um pedaço estreito de papel, torcido e com suas extremidades coladas, formando uma fita de Möbius. Depois de fazer um furo com a tesoura no centro da superfície do papel, o participante segue cortando-o continuamente no sentido do comprimento. Conforme a fita vai sendo cortada, mais fina e alongada ela fica, desafiando seus limites estruturais. O título no gerúndio e a ação quase meditativa indicam que o valor poético do trabalho está no momento presente. “A obra é o seu ato”, definiu a artista em suas instruções. 

Obras como “Diálogo de Óculos” (1966), “Estruturas vivas” (1966), “Baba antropofágica” (1969) e “Canibalismo” (1969) seguem na proposta de incitar a interação, mas agora direcionando o foco para a relação entre os próprios indivíduos, tendo os objetos criados por Clark apenas como mediadores. A ideia de corpo aqui rompe com o individualismo: um único corpo torna-se coletivo e vários corpos tornam-se um. 

“Baba Antropofágica”, 1969. Imagem via portal.lygiaclark.org.br

Diante da repressão ditatorial, com o aprisionamento ou desaparecimento de amigos, corpos sendo subjugados, sujeitos à manipulação e supressão, Lygia Clark responde voltando suas pesquisas para a “ressensibilização” do sujeito moderno. Nesse sentido, surgem os “objetos relacionais”, peças elaboradas a partir de materiais completamente ordinários, na intenção de encorajar o sujeito a se tornar mais consciente de seu próprio corpo e das múltiplas respostas que ele pode despertar. A primeira desta série, criada em 1965, é “Pedra e Ar”. O trabalho, que inspirou Caetano Veloso a escrever “If You Hold a Stone”, consiste em nada mais do que um saco plástico cheio de ar, com uma pedra sobre ele. A artista relatou sua primeira experiência com o objeto: “comecei a apalpar o saco sem me preocupar… com a pressão a pedra subia e descia por cima da bolsa de ar… mimetizando assim um parto muito inquietante… então, de repente, percebi que aquilo era uma coisa viva. Parecia um corpo. Era um corpo… isso me transformou e ao mesmo tempo significou o fim de minha crise.”

Em 1968, a artista teve uma sala especial na Bienal de Veneza, onde sua obra “A casa é o corpo” foi um dos pontos altos. A instalação de oito metros de comprimento convida o público a adentrá-la e reviver metaforicamente o próprio nascimento, passando por diferentes experiências sensoriais que remetem às fases da reprodução: a penetração, a ovolução, a germinação e a expulsão. 

Vista da instalação “A casa é o corpo” (1968), parte da exposição “Lygia Clark: The Abandonment of Art”, no MoMA, NY

Apesar das expectativas e solicitações de Lygia, toda a sua produção é amplamente abraçada pelo circuito de arte, que a celebra como uma das mais importantes artistas brasileiras do século 20, como evidenciado em sua atual exposição na Pinacoteca.

Serviço:
Lygia Clark: Projeto para um planeta
Local: Pinacoteca de São Paulo – Edifício Luz
Período expositivo: Até 04 de agosto de 2024
Ingresso: R$ 0–20

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