A discriminação contra pessoas de origem asiática e a reação da arte nos EUA

Violência contra a comunidade cresceu no último ano, insuflado por fake news sobre a pandemia; quase 3800 casos de discriminação foram registrados nesse período

Trabalhos da artista Amanda Phingbodhipakkiya ilustram cartazes em protestos contra a discriminação.

Em meados de maio de 2020, já se fortalecia nos Estados Unidos um movimento que buscava alertar sobre o crescimento da discriminação contra pessoas de origem asiática. Isso porque várias pessoas passaram a associar, de forma preconceituosa, a origem e a propagação da Covid-19 a pessoas com descendência oriental. Como noticiamos naquele momento em texto sobre a iniciativa Stop DiscriminAsian, essa ascensão de hostilidade foi insuflada pelas fake news espalhadas por líderes como Donald Trump e pessoas ligadas à política, como um dos filhos de Jair Bolsonaro.

Apesar da corrida no combate não só ao vírus, mas também às informações falsas espalhadas sobre ele (que são um dos fatores mais perigosos no aumento de infecções pelo mundo), os casos de violências contra cidadãos de origem asiática e também provenientes das ilhas do Pacífico não cessaram. Uma pesquisa do grupo Stop AAPI Hate, lançada no meio de março passado, mostrou que quase 3800 casos de racismo voltados a essas comunidades foram registrados no último ano, desde o início da pandemia. A grande maioria desses casos aconteceram com mulheres.

Dias depois da publicação desta pesquisa, ocorreu um tiroteio em Atlanta. Em 16 de março, um homem saiu atirando em uma área da cidade. Oito pessoas morreram na ocasião, dentre elas seis eram mulheres asiáticas. Esse acontecimento fez com que o movimento Stop Asian Hate ganhasse ainda mais força, puxando uma série de ações contra essa a violência.

Obra do artista Sho Shibuya, produzida em referência ao tiroteio em Atlanta, publicada em seu Instagram com a legenda STOP ASIAN HATE.

Não demorou muito para que esse tema fosse levantado no meio da arte. A movimentação entre artistas e trabalhadores do meio cultural no geral influenciou publicações, instituições e espaços voltados às artes no geral a tomarem algum posicionamento. A revista ArtForum, por exemplo, recebeu em março uma carta aberta de oito artistas asiáticos e profissionais da arte. No início de abril, o texto foi publicado. É um texto que convida a ArtForum a discutir o assunto, não ficando em silêncio sobre o que está acontecendo.

Várias instituições de arte também tomaram uma posição e se manifestaram, especialmente após o que ocorreu em Atlanta. O Metropolitan Museum of Art e o Museum of Modern Art de Nova York (MoMA) e o De Young Museum de São Francisco, por exemplo, emitiram declarações online em solidariedade à comunidade AAPI (sigla para Asian American and Pacific Islanders).

O presidente e CEO do Met, Daniel H. Weiss, e o diretor da instituição Max Hollein, assinaram nota conjunta onde falam sobre a missão do museu, que é “fornecer a arte como um ponto de entrada para a educação, a conversa cultural e a compreensão global” além de compartilhar sua coleção, na qual estão inclusas obras de arte de culturas de toda a Ásia. “Esses atos repreensíveis são contra tudo o que o Museu defende, e nós nos solidarizamos com a comunidade AAPI – aqui em Nova York, no The Met, entre nossa equipe e suas famílias, e em todo o país”, finaliza a nota.

Obra de Martin Wong, Stanton near Forsyth Street, de 1983, que ilustra o posicionamento do MoMA.

O MoMA publicou uma obra do artista Martin Wong em suas redes sociais, dando um panorama sobre o trabalho e pontuando: “Este trabalho homenageia a diversidade cultural que define Nova York. O MoMA rejeita o racismo em todas as suas formas e celebra a abertura, a tolerância e a generosidade. Reconhecemos e condenamos a longa história de racismo, discriminação e violência contra as comunidades asiáticas, asiático-americanas e das ilhas do Pacífico e pessoas de cor neste país. O horrível tiroteio em Atlanta é apenas o mais recente na recente onda de ódio anti-AAPI na América”.

A Aperture Foundation também fez uma postagem bastante incisiva sobre ocorrido, destacando artigo na revista gerida pela instituição que ressalta o trabalho do Museu de Chineses na América, que perdeu parte de seu arquivo em um incêndio no ano passado: “A Aperture apoia a comunidade asiático-americana e as das ilhas do Pacífico e também se coloca contra a violência racista recente e histórica contra a comunidade AAPI”.

Já há alguns meses o Museu Nacional de Arte Asiática do Smithsonian, sediado em Washington, tem se manifestado sobre essas violências, pontuando as ações da instituição que buscam valorizar artistas asiáticos e AAPI. Em uma publicação de fevereiro, a instituição também citou casos de racismo que vêm sendo reportado há meses.

“O mundo passou por mudanças tremendas à medida que a Covid-19 remodelava nossas vidas e aumentava nossos medos. A disseminação do vírus ocasionou o aumento do racismo anti-asiático e da xenofobia em todos os Estados Unidos, assumindo as formas de vandalismo, intimidação estudantil, discurso de ódio online e, mais recentemente, ataques violentos contra idosos. Esse tipo de “alteridade” divide as comunidades por grupos desumanizadores de pessoas quando a ansiedade é manipulada e mal direcionada para colocar a culpa em um tempo de crise”, diz a postagem.

Tommy Kha, Quarter self portrait (Grandma), or Old, Arlington, Tennessee, 2014.

Em um dos depoimentos mais tocantes sobre o assunto, o fotógrafo e artista Tommy Kha publicou em sua conta no Instagram uma foto de sua autoria seguida de depoimento sobre o assassinato de sua tia em 1998, mostrando que esse ódio aos asiáticos é histórico nos Estados Unidos e que os acontecimentos recentes só serviram para intensificá-lo.

Ele conta também que até hoje sua tia não teve justiça: “O que tem acontecido é um sentimento anti-asiático, um produto do ano passado, mas mais como resultado do racismo sistêmico e patriarcado em curso, (…). A paisagem americana não tem sido tão gentil com os imigrantes”.